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#008 — Não escreva fazendo careta
Porque você não tem outra escolha a não ser conviver com aquela história difícil de agradar
Trabalhar com histórias é passar o tempo todo refletindo sobre a nossa relação com elas. Seja naquele filme ou livro que marcou sua vida e, principalmente, aquela história que você quer colocar no mundo.
É quase como se fossemos contratados para o emprego dos sonhos. Chegamos cheios de expectativas, acreditando ser nossa grande chance para, no fim, descobrir que pode ser sim a grande chance, mas com sua dose de desafios, colegas de trabalho difíceis de lidar e uns surtos no caminho. E não temos outra escolha a não ser conviver com essa história.

Nada de fazer essa cara quando aquele romance com seis pontos de vista e quatro linhas do tempo te cutuca no meio da noite pedindo atenção, hein!
Repetidas vezes atendo autorias que estão nesse cabo de guerra com as histórias que escolheram contar e eu sempre solto um “Se não te causa tesão, não tem porque continuar”. Acontece, é normal, a gente vê que algumas histórias não servem para o momento da vida em que estamos ou, até mesmo, são histórias de tamanhos e pesos bem diferentes do que podemos bancar. Claro que quando eu falo uma coisa dessas, não é na esperança de ver a autoria desistir, é só pra pessoa refletir a relação dela com a história. O quanto de tempo você deve insistir naquela história trabalhosa só depende de você.
Em um outro momento, conversando com um autor que estava chateado pela rotina agitada ter feito reduzir sua produtividade, lembrei de uma coisa que eu mesmo preciso me lembrar às vezes: não faça da escrita uma obrigação que você se sente mal em não cumprir.
Sim, consistência é importante para quem quer escrever. Você precisa ter em mente que a consistência na escrita faz as palavras saírem mais fáceis até em dias que você sente que elas não irão sair. Só que consistência não pode ser confundida com obrigação. O tesão em criar histórias não pode ser confundido com trabalho.
Quero dizer, depende muito.
A gente precisa insistir um pouco naquela história difícil de trabalhar. Precisamos fazer um esforço para encontrar tempo e disposição para dedicar uns minutinhos à escrita. Às vezes é bom tratar escrita como obrigação e que criar histórias como um trabalho. Contanto que façamos isso em níveis saudáveis.
E é por isso que como você se relaciona com a história conta muito. Ela vai te dar dor de cabeça, vai puxar seu pé à noite e vai te dar trabalho quando menos espera. A história precisa de você tanto quanto você precisa dela. É uma troca constante que é prejudicada quando ela te enche demais o saco e sua reação é pegar ranço.
Por isso, não fique “de mal” da sua história. Pode colocar ela de castigo quando não se comporta, ou até mesmo ameaçar entregar para a adoção, mas não faça careta toda vez que ela entra no recinto e pede por atenção. Porque quando a gente não começa a suportar a ideia de trabalhar com aquela história malcriada, aí não tem jeito mesmo.
Pode abandonar. É o melhor para ambos e, talvez, ela pode até ressurgir na forma de uma criação mais educada e bem-comportada.
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