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#009 — Múltiplas identidades
Porque eu inventei de separar meus trabalhos mesmo que talvez ninguém se importe tanto com isso ainda
Somos pessoas plurais. Ponto final.
A maneira como eu falo com meus colegas de trabalho definitivamente não é a mesma com que eu falo com a minha família. A minha linguagem aqui nessa newsletter, quando ela acontece, é beeeem diferente do que eu escrevo nas minhas histórias e no meu trabalho como agente literário, ou leitor crítico, ou preparador.
No fim do ano passado, eu me toquei que tinha um livro pronto para começar a mandar para algumas editoras. Uma comédia romântica LGBTQIAP+ que tenho muito orgulho e estou editando aos poucos para deixar ela ainda mais redondinha. Sinto que ela tem potencial e estou trabalhando para isso.
Só que eu também sou um agente literário. Passo todos os dias lidando com o texto de outras pessoas e buscando casas editoriais bacanas para essas histórias.
Apesar de serem trabalhos bem diferentes em sua concepção, comecei a nutrir levar a sério a ideia de que deveria separar esses dois trabalhos, visto que:
As editoras que entrarem em contato comigo para tratar dos autores que agencio não precisam saber, de imediato, que eu escrevo. Portanto, elas não precisam se sentir acuadas em um possível conflito de interesses caso tenham recusado algum texto meu;
As editoras que entrarem em contato comigo para tratar das minhas obras não precisam saber, de imediato, que eu sou um agente literário. Portanto, elas não precisam se sentir acuadas em um possível conflito de interesses caso tenham recusado algum texto dos meus autores.
Evidentemente, essas duas identidades se mesclam no dia a dia. Não sou um botão de liga e desliga, então o Lucas escritor às vezes assume o Lucas agente, que por sua vez assume o Lucas leitor crítico, sendo ultrapassado pelo Lucas preparador, que vive metendo o bedelho no que o Lucas escritor está fazendo.
E digo mais: ninguém me conhece.
Tá, algumas quarenta pessoas me conhecem ou já ouviram meu nome ou já me viram em algum evento. Tenho o privilégio e oportunidade de estar perto de gente muito incrível e que permite que eu conheça muitas outras pessoas incríveis por tabela. Mas ninguém me conhece tanto assim. Eu posso até mesmo falar que eu sou filho de dois espiões aposentados que não tem ninguém para refutar.
(Não, eu não sou filho de dois espiões aposentados. Quero dizer, se eu fosse, eu falaria isso abertamente?)
Falando sério agora, o anonimato permite uma coisa muito legal em um mercado que é tomado, talvez até de mais, de muita informalidade: estabelecer limites.
Quando eu estabeleço que Lucas Cabrero é o nome para meus livros, meu trabalho como preparador, mentor de escrita criativa e leitor crítico, é para esperar que todos os assuntos relacionados a isso venham com esse nome. Então eu, Lucas Cabrero, vou ser o cara que vai contar sobre a história que estou trabalhando, vou mostrar meu nomezinho na ficha técnica do livro que eu preparei e vou falar para você ir no meu site e descobrir como contratar meus serviços de leitura crítica e mentoria.
O trabalho de agenciamento, por outro lado, às vezes fica nos bastidores. É um trabalho íntimo entre mim e os autores que agencio. É contrato, negociação de direitos autorais e dados sensíveis sobre os autores, seus livros e as pessoas e empresas envolvidas até chegar na mão do leitor. Coisa que, por contrato, eu não posso revelar. Então eu, Lucas Murari, vou adorar conversar com você sobre agenciamento, vez ou outra soltar alguma novidade que eu posso contar e vou garantir sempre que meus autores estejam contando suas melhores histórias nas melhores editoras possíveis. É o meu trabalho fazer isso.

Como eu me sinto quando mudo da persona escritor para a persona agente
Talvez uma das coisas mais legais de ter começado com o agenciamento já entendendo a importância dessa divisão é que eu posso aplicar ela desde o começo e ir moldando com o tempo. Entender como esses limites se borram e se afastam. É muito mais fácil organizar tudo quando você acabou de chegar, tem espaço livre e um olhar menos viciado para reconhecer oportunidades.
Isso significa que eu vou ter essa divisão sempre? Não. Tudo é um grande depende. Mas, no momento, separar isso está me fazendo bem.
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