A newsletter de hoje tá um pouco diferente. Lá em 2021, a Revista Mafagafo tinha a Faísca, uma newsletter com ficções relâmpago toda semana para seus assinantes e, na sexta temporada do projeto, tive o prazer de ser selecionado com um conto inteiramente narrado em diálogos sobre um interrogatório após um acidente mágico no ônibus indo para o trabalho.

Hoje em dia, não temos mais a Faísca Mafagafo, mas fica aqui o registro desse conto que eu adoro pelo humor e a brincadeira de contar uma história só através de falas. Ah, e o conto também teve versão para o áudio narrada pelo maravilhoso Ariel Ayres, ouça aqui.

Espero que gostem.

Próxima parada, por Lucas Cabrero

— Por que não começa do começo, por favor?

— Tem certeza, moço? O começo é um pouco chato…

— Todo detalhe é importante, senhor. Ainda mais dada a situação.

— Se você diz… então, eu acordei no horário de sempre para pegar o 119, ele chega mais em cima da hora no meu trabalho do que se eu pegasse o 225, mas pelo menos eu vou sentado, exceto quando o 521 quebra, aí eu…

— Se puder avançar um pouco, não precisa ser tão do começo assim.

— Eu disse que seria chato, moço… mas é o de sempre, peguei o 119 e cumprimentei o Oswaldo, você já falou com ele, né?

— Ainda não, o motorista está internado após ser atingido na confusão.

— Eita! Podia jurar que não tinha dado nada com ele. Sabe quem vai ficar no lugar dele no ônibus? Não sendo o Seu Luís…

— Isso é só com a companhia de ônibus, senhor. Voltando ao ocorrido…

— Isso. Sentei no banco de sempre e bati um papo com a Rosa, ela é da limpeza lá do fórum, ela tá bem já, né?

— Sim, senhor. Conseguimos reverter a pata de bode que cresceu no lugar do braço dela.

— Eu nunca tinha visto coisa assim…

— Nossa organização é bem discreta, foi um erro terem presenciado isso.

— É, aquele moço que trabalha pra vocês entrou correndo no ônibus. Novinho e assustado que só, coitado.

— Mais uma vez, foi o erro de um recruta que não deveria ter levado a situação para dentro de um ônibus. Peço desculpas por isso.

— Até hoje o que de mais doido que eu já vi acontecer no busão foi uma mulher tendo um bebê. Fiquei sabendo que ela botou o nome do bebê de Oswaldo.

— E o que aconteceu depois?

— Acho que o Oswaldo foi no batizado da criança.

— Quis dizer sobre hoje.

— Ah, sim. Então, depois entrou um outro homem, ele era mais velho e tinha os cabelos tudo bagunçado, parecia o doutor lá do De Volta para o Futuro, sabe? Ele saltou pela janela, mais um pouco me acertava. O Oswaldo até tentou frear na hora que tudo aconteceu, mas o homem falou umas palavras esquisitas para ele e apontou uma bengala que tinha uma luz estranha.

— Ele lançou um feitiço para controlar o ônibus, senhor.

— Acho que foi isso, afinal quem entende de magia é você, né não? Hahaha

—Continue, por favor.

— O rapaz também tirou a varinha dele, mas era bem mixuruca, viu. Parecia de brinquedo…

— É… o armamento oficial da instituição, não é… que seja. Prossiga.

— Teu rapaz tomou um coça do velho, só digo isso. Foi assim que ele acertou sem querer a Rosa. Cês vão indenizar ela, né?

— Certamente.

— E eu?

— O senhor se feriu ou foi atingido diretamente por alguma magia?

— Eu fiquei assustado…

— Tenho certeza de que podemos encontrar uma maneira de amenizar seu sofrimento. E depois que a sua conhecida foi atingida?

— O rapaz conseguiu atingir o velho com um raio, foi tão forte que até estourou o fundo do ônibus. Ele ficou caído lá do lado de fora, no meio da rua. Eu vi que cês tem uns moletons bem legais, aceito como compensação por terem me feito perder a hora no serviço.

— Esses moletons são apenas para funcionários, senhor. Temos bonés.

— Pode ser. O Oswaldo conseguiu parar o ônibus, acho que o feitiço passou o efeito, mas ele ficou bem mal depois. O velho acabou fugindo. Tem como arranjar um boné pro meu pequeno também?

— Vou ver o que posso fazer. Uma coisa que a senhora Rosa falou é que ela viu o suspeito largando a… bengala no chão quando foi atingido. Sabe de algo sobre aonde ela possa estar?

— Não sei não, hein. Espero que quem tenha pego saiba usar. Tem coisa na internet sobre ela, não tem?

— Por que a pergunta?

— Curiosidade, apenas. Então, posso ir?

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