Na edição anterior, falei um pouco sobre os caminhos que me levaram a escrever Auxiliar de limpeza sobrenatural e como eles tinham muito a ver com um período marcante da minha vida. Nessa newsletter, vou falar um pouco sobre criar o mundo da história.

Benício del Toro no intervalo das gravações de O Lobisomem (2010) ou um dos personagens de “Auxiliar de limpeza sobrenatural”?
Tem uma coisa muito legal sobre ser um autor iniciante que pouca gente fala ou, se fala, não dá o destaque que merece: nós devemos usar e abusar do nosso anonimato.
Ninguém te conhece dentro da bolha das redes sociais ou nas páginas da Amazon ou Wattpad, você pode experimentar e errar sem grandes prejuízos à sua reputação ou marca.
Por isso os dois (ou cinco) primeiros livros de qualquer um são os mais divertidos de produzir, na minha opinião. Porque a gente definitivamente não sabe o que pode sair deles. Foi pensando em arriscar e escrever algo totalmente fora do que havia produzido, que o mundo e o tom de Auxiliar de limpeza sobrenatural começou a tomar forma.
A história se passa em um mundo em que vampiros, lobisomens, zumbis, sátiros e todo tipo de criatura fantástica divide espaço com os humanos normais. Naquela época, eu não era tão consumidor de fantasia quanto hoje em dia (sempre fui mais da ficção cientifica), então eu fiz o que não recomendo para ninguém (mas se quiser, pode): comecei a escrever sem buscar nenhuma referência. Fui totalmente no achismo, no que eu sentia que poderia funcionar para a história e quais convenções sobre lobisomens, vampiros e semelhantes poderiam ficar legais nesse mundo que estava criando.
Um dos principais itens descartados durante a escrita explicava a origem do mundo, com um portal interdimensional abrindo na nossa realidade e cuspindo lobisomens e as demais criaturas que quis incluir na história.
Eu gosto dessa ideia? Gosto, mas não quis estender demais explicações e no fim ela acabou sendo cortada. Como as criaturas passaram a conviver com humanos? Sei lá, precisa mesmo explicar?
Uma questão que eu quis trabalhar foi uma ideia mais científica da existência dos não humanos no mundo. Os zumbis passam por processos conscientes de conversão para se tornarem zumbis, os lobisomens tem os ossos modificados em instantes para se transformar na criatura e vampiros… eu não lembro se inventei alguma coisa “científica” para eles.
Penso que volta, mais uma vez, para o “eu quero explicar demais?” de mais cedo. Não é o foco da história explicar cada minúcia do mundo. Se Duda, Otávio e todos os outros personagens sempre viveram naquele contexto, por que eles deveriam recitar cada uma das regras daquele universo? Eles já deveriam saber de tudo isso, não?
Quando a gente fica em paz com o que quer mostrar ou não do mundo e entende que nem tudo o que você inventou do universo tem espaço na história (era pra ter menções ao tio do Duda se casando com uma sereia), fica a oportunidade de explorar o que deveria ter em mente desde o começo: usar da história para explorar um tema.
A existência dos lobisomens, vampiros, sátiros e zumbis traçam um paralelo com a jornada de Duda como um homem trans. Todo mundo é diferente em alguma escala, isso é fato. No mundo de Auxiliar de limpeza sobrenatural, entretanto, alguns são “diferentes demais” e isso é motivo para serem excluídos da sociedade e terem suas identidades violentadas de diferentes formas todos os dias. Enquanto outros são “diferentes de menos” e acham que isso é motivo para reafirmar ciclos de opressão. Afinal, isso não impacta a vida deles, eles não são “diferentes”.
Não é muito diferente do que acontece no mundo real, né?
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